Todos os dias gasto em média numa caminhada, 40 minutos de ida e volta ao trabalho. Contando semanalmente, corresponde a duas horas (sem falar nas caminhadas extras que executo durante o serviço). Na chegada, o cabelo precocemente empastelado de suor, ajuda a engrenar o dia que promete ser tão longo quanto à minha apreensão pelo seu fim. Todos querem algo. Cobram, indagam, ameaçam, recordam...e tudo mais que possa comprometer sua paciência. A paisagem composta de pilhas de papeís, livros, calculadoras, lembretes e mais incontáveis cacarecos de extrema usuabilidade, interagem perfeitamente com a formalidade do ambiente. Há os que dizem que é possível enxergar com otimismo e lirismo isso tudo. Descambei para o lado artístico e ví a natureza morta com o um toque de tenebrismo de Caravaggio. Nos minutos de reflexão não obtive nenhuma resposta se aquela atitude havia dado certo. O telefone toca e prefiro 1000 vezes ser ignorado do que ignorar. Sou avesso à mentalidade de um convicto fanático pelo seu time. Enquanto ele espera pela pompa e o deleite de sua glória, prefiro estar recluso sob uma mesa. Adiantando essa cronologia, por raras as vezes chega a fase em que o ócio é uma tremenda armadilha quando se aproxima uma tempestade. A tempestade que me refiro é a incompetência alheia. Estar a postos para sanar os problemas que os outros se lixam para resolver é uma tarefa tão estupidamente cotidiana que a única atenção que mereça ser observada é que seja feita vistas grossas. A partir daí, é que se desenvolve a parte intuitiva. A que muitas vezes não serve para nada quando o cerébro involuntariamente entra em ação e resolve vingar-se. Faz descortinar a sensação de que tudo está errado. Faz vomitar o podre desse lado existencial quando questiona a sí próprio de que é uma farsa. Essa intuição de que a derrota nos espia, é o contorno criado pela culpa das exigências que lhe são designadas. O medo em errar, falar demais, de menos. Sentir que as obrigações lhe conduzem ao eterno conhecimento dos fatos para que sempre deva saber primeiro que os outros. A falta de reconhecimento e as indiferenças nas palavras e na expressão tornam-se um pesado e passageiro fardo. Os anos passam e o fim dessa repetitiva novela é que aprendemos a conviver e ainda tirar proveito de uma situação que amedronta, fragiliza, entristece e apaga o ego pela insegurança.
Vinte anos atrás, esse texto estaria sendo elaborado numa Facit, em uma enorme sala com enormes janelas de vidro e pisos em taco. Sob o vento de barulhentos e metálicos ventiladores de teto, assistindo a um insonso balé de papéis sobrevoando a sala.
Gastaria R$ 26,55 (ou R$ 0,45 uma carta simples) + R$ 0,15 por cada fotocópia, para postar equivalentemente a quantidade de pessoas adicionadas ao meu Orkut.Custo total R$ 26,55. Somente para que os outros pensem que o seu cotidiano profissional ainda não é o último abacate podre do galinheiro abandonado. Quem quiser levar esta droga muito a sério, talvez lhe sirva como um texto de auto ajuda na versão tupiniquim.
